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Por que estão acontecendo tantos ataques a escolas no Brasil? Especialistas explicam

Revista Crescer

Até 28 de outubro de 2002, o Brasil nunca havia registrado ataques a escolas. Neste dia, um estudante de 17 anos entrou no Colégio Sigma, em Salvador (BA), e disparou quatro tiros contra os colegas. Uma aluna morreu e a outra ficou ferida. O episódio despertou um medo que até então era desconhecido por famílias e educadores brasileiros: a escola, que antes era vista como um ambiente acolhedor e seguro, também passou a ser sinônimo de perigo.

Enquanto outros países já encaravam casos de violência extrema em colégios desde os anos 80, como a tragédia de Columbine, nos Estados Unidos, o Brasil por muito tempo conseguiu passar ileso. Infelizmente, hoje já não podemos mais dizer o mesmo. Só nos últimos dez dias, foram registrados dois atentados com vítimas fatais: um na Escola Estadual Thomazia Montoro, em São Paulo (SP), no último dia 27 de março, e outro na creche particular Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau (SC), nesta quarta-feira (5).

Esses dois casos não são isolados. O número de ataques a escolas brasileiras disparou. Um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), divulgado na última semana, mostrou que pelo menos 23 atentados de violência extrema aconteceram em instituições de ensino no país desde o primeiro caso, lá em 2002. Mais da metade foi registrada de 2017 para cá. Isso sem falar nas inúmeras ameaças de atentados que não chegaram a ser concretizadas.

Mas, afinal, o que explica esse aumento no número de ataques a escolas no Brasil? O que está por trás desse cenário e o que leva alguém a querer atentar contra um colégio? CRESCER conversou com especialistas para entender o porquê de tantas escolas estarem sendo palco de ações violentas, como as das últimas semanas.

Não existe só um culpado

Não dá para falar sobre o aumento no número de ataques a escolas sem considerar o contexto em que eles estão acontecendo. “Para entender isso, é inevitável a gente olhar para tudo o que antecede esse ano de 2023. A última eleição mostrou que temos uma sociedade partida, mas a gente tem vivido um processo que não é de agora e que começou muito antes disso. Nos últimos anos, a gente viu a ascensão de um discurso violento, autoritário, ultraconservador e facista”, diz Marcele Frossard, pesquisadora nas áreas de sociologia da educação e sociologia da violência e assessora de políticas sociais da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Para Marcele, não é por acaso que os ataques estejam mais frequentes e que as escolas sejam o espaço escolhido para essas investidas violentas. “Por que esses atentados não acontecem em shoppings, por exemplo, ou em outros espaços públicos? Isso não é uma coincidência ou um fruto de uma escolha aleatória. Porque essa não é uma violência na escola, mas, sim, uma violência à escola. Isso está relacionado ao ódio a minorias e essa aproximação de teorias ideológicas fascistas e nazistas. As escolas são ambientes amplamente democráticos e espaços com grande diversidade. Atentar contra elas também é uma forma de atentar contra a democracia”, explica.

Marcele é uma das autoras do relatório “O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para a ação governamental”. O documento investigou qual a relação entre essa escalada ultraconservadora e a violência nos colégios. Ele foi apresentado ao governo de transição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com o objetivo de propor estratégias para lidar com essa questão. Uma dessas estratégias é, justamente, impedir que discursos violentos se multipliquem.

As redes de ódio na internet

O estudo feito pela Unicamp, citado no começo da reportagem, também traz um perfil de quem são as pessoas responsáveis pelos ataques a escolas no Brasil. A maioria são homens brancos de 10 a 25 anos, que se interessam por armas e atividades violentas e que se conectaram, por meio da internet, a grupos extremistas.

“Alguns anos atrás, esses fóruns e esses grupos que disseminam discursos de ódio, atos violentos, nazismo, racismo, encontravam-se na deep web, na internet profunda. Eles eram de difícil acesso. Mas, nos últimos anos, eles estão na superfície da internet e estão de fácil acesso em redes sociais. São fóruns, inclusive, que ensinam como podem planejar essas situações. Então, esses jovens são apresentados a conteúdos extremistas e de ódio cada vez mais cedo”, afirma a pesquisadora Telma Vinha, uma das autoras do estudo.

Apesar disso, o contato com esse tipo de conteúdo não é suficiente para explicar, sozinho, um ataque à escola. Tem muito mais coisa em jogo. “Essas pessoas muitas vezes têm um histórico de abandono, de violência na infância, de exclusão, e encontram nas redes sociais extremistas uma identificação. É uma lógica de ‘eu não me sinto acolhido, então vou buscar esse acolhimento na internet’. Quando estou num grupo que me sinto invalidado e finalmente encontro outro grupo com o qual eu me identifico, eu preciso me provar e conseguir aprovação. E esses grupos extremistas incentivam essa aprovação estimulando a violência”, explica a médica psiquiatra Julia Trindade, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (SC).

A inspiração em outros ataques

Como é de se esperar, ataques a escolas ganham destaque no noticiário e geram uma onda de revolta entre as pessoas. Os atentados viram assunto entre as famílias, nas ruas, nas redes sociais… E, querendo ou não, os autores dos ataques acabam virando “protagonistas” da história. É justamente essa atenção que muitos deles procuram.

“A imitação e a busca por notoriedade são outras razões potenciais para ataques em escolas. Os perpetradores estão cientes de que um ataque a uma escola recebe muita atenção da mídia. Frequentemente, vários atentados a escolas ocorrem em períodos de tempo relativamente curtos, como foi agora. Isso parece apoiar a hipótese de que muitas dessas pessoas estão imitando as ações de assassinos anteriores e esperando obter alto nível de exposição na mídia”, sugere a psicopedagoga e psicanalista Mônica Pessanha (SP), colunista da CRESCER.

A psiquiatra Julia Trindade explica também que, entre os jovens, essa necessidade de aprovação costuma ser maior do que em outras fases da vida. “O ser humano precisa de aprovação e a necessidade de reconhecimento nessa fase é mais intensa. O córtex pré-frontal, que é a área do cérebro responsável pelo controle dos impulsos, só vai estar formada lá pelos 20 ou 24 anos. Nessa fase da vida, sem orientação, é mais difícil a gente estabelecer o limite do que deve ou não ser feito”, diz.

O efeito pandemia e a saúde mental

Também não dá para ignorar que todo esse cenário se construiu num período pós-pandemia. Tivemos de nos isolar, lidar com perdas e mudanças de rotina. As crianças, os adolescentes e os jovens, que conviviam diariamente com os colegas na escola, de uma hora para outra, acabaram se vendo longe dos amigos e “presos” em casa.

“Sem essa interação, muitos jovens mergulharam na internet. Eles não puderam passar por ritos importantes e tiveram suas perdas, tudo isso num momento em que o cérebro está em formação e as experiências são muito importantes. Aí eu começo a ter raiva do mundo, do que aconteceu, das pessoas que me faziam mal… A escalada da violência também está relacionada à pandemia”, afirma Julia Trindade.

Uma pesquisa feita pela Nova Escola mostra justamente isso. Eles entrevistaram 5.305 educadores para entender como estava o retorno às aulas depois do isolamento social. Mais de 65% responderam que os alunos voltaram mais violentos e que os casos de violência se tornam frequentes. Para os entrevistados, uma das razões para isso é aumento de casos de transtornos mentais durante a pandemia e a dificuldade de socialização depois da volta às aulas.

“Sabemos que de 30 a 40% das crianças em idade escolar, em algum momento, vão sofrer bullying, mas a maioria não vai cometer crimes. Assim como há milhões de jovens que jogam videogames violentos, mas não saem cometendo crimes. A meu ver, ataques a escolas são casos raros e, quando acontecem, normalmente há um transtorno psicológico envolvido. Mas, de forma geral, é uma junção de fatores, incluindo a questão do ambiente onde essa criança ou jovem vive. Para muitos, a escola e a casa, que deveriam ser locais de acolhimento, são locais tóxicos e agressivos”, explica o psiquiatra Gustavo Teixeira, autor do livro Manual Antibullying – Para Alunos, Pais e Professores (Ed. Best Seller).